Dia das Mães -- e dos Pais...
Embora domingo que vem seja o Dia das Mães, é aos pais que desejo expressar minha mais sincera solidariedade. Dizem que ser mãe é padecer num para;iso. Pai sofre (e sofrer não é sequer tão nobre quanto padecer) -- e não é em nenhum paraíso.
O pai está sempre correndo atrás do
prejuízo. O homem se torna pai, mesmo, quando o filho nasce (e ele tem certeza
de que é dele). A essas alturas, a mãe já é mãe há cerca de nove meses e,
durante todo esse período, desenvolveu com o filho toda uma cumplicidade que o
pai vai levar anos para conseguir (se é que consegue). A mãe alimenta o filho
antes de ele nascer, sente-o crescer nas suas entranhas, recebe chutes e outras
cutucadas dele, fica com o corpo meio deformado (se bem que ainda lindo) por
causa dele, sofre mudanças no seu organismo relacionadas ao filho que carrega,
tudo em preparação para colocá-lo no mundo e para alimentá-lo. Quando ele
finalmente nasce, a mãe se sente, em relação a ele, como se estivesse lidando
com um velho conhecido. Afinal, ele foi parte dela, em um sentido literal,
durante nove meses. Em um sentido
figurado, nunca vai deixar de ser parte dela.
Durante todo esse período de gestação, o que faz o pai? Fica assim com uma cara meio abobalhada quando se lhe dão os parabéns, pois tem o sentimento de que está recebendo honras que não lhe são inteiramente devidas. Afinal de contas, sua participação no processo está sendo mínima (mesmo que inicialmente possa não ter sido desprezível).
Mas o pior vem depois de o nenê nascer. O pai olha para ele e pergunta: "Mas isso aí é o meu filho?" Falta-lhe aquele sentimento de intimidade com o recém-nascido que na mãe é tão natural. Afinal de contas, ela já o conhece bem.
Além disso, na maternidade, todo mundo quer ver, o nenê e a mãe -- nesta ordem. O pai em regra nem é percebido, mesmo que esteja no quarto e por mais que se esforce para ser notado, distribuindo charutos, fazendo piadinhas, colocando o uniforme do time preferido na porta do quarto (se o nenê for menino), coisas assim. Se é o primeiro filho, então, ele em geral nem carregá-lo direito sabe: pega-o desajeitadamente, como quem está com medo de quebrar a criança. A mãe, por outro lado, parece que foi feita para aquilo: segura a criança com naturalidade, e esta se encaixa no vão entre sua barriga (que ainda não voltou ao normal) e os seus seios, prontos para alimentar o recém-nascido.
Convenhamos: a criança que acabou de nascer e que agora vai crescer é uma realização da mãe. O pai, na realidade, não passa de coadjuvante -- mas a sensação dele é de que é apenas figurante. Nenhum homem vai jamais entender o mistério da maternidade.
Se o nenê for menina, o pai vai ter um pouco de chance de ganhar algum prestígio relativo mais adiante, por razões que Freud bem explica.
Mas se for menino, esqueça (pelas mesmas razões). O menino vai ser um eterno rival do pai, que vai se sentir cada vez mais preterido pelas atenções que a mãe vai devotar ao rebento - para o resto da vida!
Sei bem disso. Meu pai, com quase oitenta anos, ainda reclamava das atenções que minha mãe me dava quando eu ia visitá-los. Sempre reclamou. Houve um tempo, antes de eu ter meus próprios filhos, em que achei que meu pai tinha algum problema emocional mal resolvido para sentir ciúme do filho. Hoje, sei melhor, pois me sinto da mesma forma -- e eu sei que... "eu sou normal"!!!.
Para vocês verem como o problema é sério, eu, como pai, já senti até uma certa inveja de uma raça de cavalos, mencionada num desses programas tipo "Mundo Animal", na qual é costume que o pai expulse o cavalinho macho da "família" assim que ele começa a achar que é gente -- para, sem a presença próxima do rival, tentar reganhar a mãe do cavalinho para si. Mas entre humanos isso não funciona.
E não adiante tentar desenvolver uma falsa cumplicidade com o menino, levá-lo ao campo de futebol, tentar inseri-lo no mundo dos machos da espécie... Quando ele tiver algum problema (exceto financeiro) é a mãe que ele vai procurar. E mesmo no caso de problemas financeiros, o menino muitas vezes pede à mae para abordar o pai -- e a mãe as vezes resolve o problema do filho sem que o pai fique sequer sabendo...
Enfim, a gente vai ter de viver com esse problema para o resto da vida. A única coisa que realmente compensa é que a mulher se derrete toda quando você, o pai, trata bem o filho DELA. E pode até lhe dar uma colher de chá de vez em quando.
Feliz Dia das Mães, para as mães. E, para os pais, Feliz Dia dos Pais antecipado.
24/06/2003 20:00