O Amor e a Gramática
Na história do Mario Prata [transcrita abaixo], o cara se casou com a mais velha; na da Lenise [transcrita após a crônica do Mário Prata], com a mais nova...
Esses causos (sem aspas depois da observação do Axel de Ferran de que a palavra está no Aurélio) me fizeram lembrar de um conto de Monteiro Lobato, chamado "O Colocador de Pronomes". Vou resumir o conto nas minhas palavras, porque infelizmente um livro dos contos "adultos" de Lobato é um dos poucos livros que realmente gostaria de ter e não tenho. [E, modestamente, eu acho que consigo entrar no espírito lobatiano e escrever na mesma veia...]
Aldrovando Cantagalo, diz a história, nasceu e morreu por um erro de pronome. Era obcecado com esse particular da gramática portuguesa.
A razão não era difícil de encontrar.
Seu pai não havia tido lá grande intimidade com os detalhes da gramática de nossa língua. Naqueles tempos sisudos, apaixonou-se, má sorte, pela filha mais nova do Coronel local -- ela, pessoa jovem, graciosa, um amor de criatura; ele, o Coronel, pessoa brava e temida, a principal causa do fato de que sua filha mais velha provavelmente iria morrer solteirona (pois, além de bravo o pai, ela tinha outras características não muito desejáveis: era um pouco velhusca, meio rechonchuda, tinha um que de vesga e mancava da perna direita).
O pai de Aldrovando e sua bela viram-se no footing do jardim, encontraram-se vez ou outra furtivamente, trocaram-se bilhetes, amaram-se daquela forma que era virtual mesmo que o termo ainda não fosse consagrado nesse sentido -- pois o amor virtual era o único que era permitido antes do casamento.
Um dia um dos bilhetes caiu nas mãos do Coronel. O bilhete, dirigido pelo pai de Aldrovando à sua amada, dizia: "Fulana [o nome da dita]: Amo-lhe".
De posse do bilhete o Coronel mandou incontinenti chamar o ousado namorador, que diante da confrontação com o Coronel tremeu nas pernas. Mas convocação de Coronel nao se recusa -- especialmente quando o Coronel é o pai da amada.
Lá chegando, o pai de Aldrovando foi recebido pela criada que o colocou no escritório. Um pouco depois entrou no escritório o temido Coronel, que foi direto ao assunto. Mostrou o bilhete ao pobre rapaz e lhe perguntou se era ele o autor.
-- "Sim, Coronel, fui eu que o escrevi", respondeu.
-- "E é verdade o que aqui está aqui escrito?", indagou o velho.
-- "Sim, sim, claro que sim".
-- "E o bilhete foi dirigido à minha filha mais nova?"
-- "Sim, sim, senhor".
-- "Então, está bom. Vai casar".
O interlocutor do Coronel caiu das nuvens. Haviam-lhe dito que o Coronel era pessoal temível e que ele podia nem sair vivo da casa. Casar? Pois ele não queria outra coisa!
-- "Ora, Coronel, com prazer. Em verdade eu tinha esperança de que um dia pudesse me casar com ela, mas..."
-- "Tudo bom. Vamos chamar a noiva", interrompeu o Coronel.
E, dirigindo-se à criada, mandou que esta trouxesse ao escritório sua filha mais velha.
-- "Perdão, Coronel. Acho que houve um engano. Não é a mais velha, é a mais nova..."
-- "Como? Você não admitiu que escreveu o bilhete à minha filha mais nova? E o bilhete não diz 'amo-lhe'? Ora, se você, escrevendo à mais nova, disse-lhe 'amo-lhe', só pode amar a mais velha -- a menos que tenha sido minha esposa que o senhor tinha em mente?"
-- "Não, não, Coronel. O senhor está certo. Eu me caso com sua filha mais velha".
E casou-se. E do casamento nasceu Aldrovando Cantagalo. Nasceu por um erro de pronome. Por isso dedicou sua vida ao estudo da língua portuguesa, para que o que aconteceu ao pai não lhe acontecesse, a ele próprio, um dia.
Como veio a morrer por outro erro de pronome, conto outro dia... Já é causo demais prum dia só.
O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 20 de setembro de 2000
Amor só de Letras
Mário Prata
Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva. Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta - que ele fez uma cara emocionada. Pela feiura da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.
Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:
- Essa tá muito novinha. Leva aquela.
E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.
Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram. Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima. De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.
Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via Internet. Via cabo, literalmente.
Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.
Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.
Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.
Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.
A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela. E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha.
E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma Coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.
Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da Venezuela. Ou do Arroio Chuí. Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente.
"Uma pessoa com um texto desses..."
A tudo isso o bom texto supera.
Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita cuja. E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais: conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.
Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.
No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.
Quando comecei a escrever um livro pela Internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.
Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso:
- Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?
Mensagem da Profa. Dra. Lenise Garcia na lista Edutec:
Date: Wed, 20 Sep 2000 14:32:40 -0300
From: Lenise Aparecida Martins Garcia <lgarcia@unb.br>
Subject: Re: [EDUTEC] Amor só de Letras
Caros,
Muito interessante a crônica do Mario Prata. Já estivemos comentando coisas parecidas aqui antes, não?
Um trechinho dele lembrou-me um fato familiar:
> Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:
> - Essa tá muito novinha. Leva aquela.
> E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu
solteirona.
Com um bisavô meu aconteceu o contrário... Ele foi pedir a um amigo a mão da mais velha, que teria uns 18 anos, e que ele não conhecia (essas coisas eram arranjadas mesmo). Chegou um pouco cedo e quem lhe abriu a porta foi a pequena, de 13. Ele se encantou com ela e puxou papo. Ela, bastante tímida porque o tipo de situação era inusitado, ficou "fazendo sala" até o pai chegar.
Quando o amigo chegou, pediu-lhe a mão da pequena... Ela levou até as bonecas para a nova casa, mas foi uma excelente mãe de família. Cheguei a conhecer essa bisavó, uma pessoa de pouca instrução e muita sabedoria.
Abraços,
Lenise
=====
Lenise Aparecida Martins Garcia
25/06/2003 00:45