Memória e Identidade
[JMC = Instituto José Manuel da Conceição, ou simplesmente
Conceição, ou, ainda JMC, escola de ensino fundamental e médio, em regime de
internato, existente de 1928 a 1970, em Jandira, SP, e de propriedade da Igreja
Presbiteriana do Brasil]
Palavras de
Abertura do Encontro dos Ex-alunos em 20 de junho de 1998:
O Takashi [Shimizu]
me pediu
para
coordenar os
trabalhos
aqui
hoje
(20/6), neste
nosso
encontro
anual
em
Jandira. O Gerson Lacerda se responsabilizará
pela
parte
devocional,
nós
vamos
cantar
e vamos
discutir
algumas
coisas
práticas.
Mas
eu
não
poderia
deixar
de
iniciar
esta
reunião
fazendo algumas
reflexões
com
vocês.
Parte
do
que
vou
dizer
já
disse
antes.
Outra
parte
foi se cristalizando na
minha
mente
à
medida
que
pensava
em
algo
interessante
para
dizer
aqui
hoje.
Sou filósofo.
Por
isso
minhas
reflexões
não
deixarão de
ter
um
tom
meio
filosófico.
John Locke, filósofo
inglês do
século XVII, defendeu a
tese
de
que
nossa
identidade
pessoal
é
totalmente
dependente
de
nossa
memória.
Ele
argumentou de várias
formas
em
defesa
dessa
tese.
Mas,
no
fundo,
ele
achava
que
a
tese
era
bastante
auto-evidente.
Ele
propôs o
seguinte
"experimento
teórico"
aos
seus
leitores.
Imaginemos
que
numa
determinada
cidade
vivam
um
príncipe
e
um
sapateiro.
Eles
nunca
se encontraram e
não
se conhecem. Uma
bela
amanhã,
entretanto,
o
sapateiro
acorda
totalmente
sem
as
suas
memórias,
mas
com
as
memórias
do
príncipe,
e diz: "O
que
estou fazendo
aqui
neste
local
imundo?
E
com
essas
roupas
horríveis?
Mordomo!
Onde
você
está?"
Nada
de
mordomo.
"Rainha,
onde
você
está?"
Nada
de
rainha.
No
lugar
dela aparece a
mulher
do
sapateiro.
O
príncipe
diz: "Quem
é
você?
O
que
estou fazendo
aqui?
Onde
está
meu
mordomo?"
Etc. (Os
diálogos
estou inventando,
não
são
de Locke).
Por
outro
lado,
o
príncipe
acorda
totalmente
sem
as
suas
memórias,
mas
com
as do
sapateiro,
e
também
desconhece o
local
em
que
está, sentindo-se perdido no
palácio,
querendo
ir
embora
para
sua
casa
na
periferia
da
cidade.
Segundo
Locke, se
isso
acontecesse,
nós
sem
dúvida
diríamos
que
o
príncipe e o
sapateiro haviam
trocado de
identidade.
Pura
e
simplesmente.
Há
muito a
favor
da
tese
de Locke.
Quando
alguém
tem
amnésia
total,
em
virtude
algum
acidente
ou
de alguma
doença,
passa,
em
um
sentido
importante
do
termo,
a
ser
outra
pessoa.
Começa
vida
nova.
Adquire
nova
identidade.
Há
um
filme
de Harrison Ford
em
que
isso
acontece
com
ele.
Também
há
um
livro
de
ficção
científica
famoso,
escrito
por
Robert Heinlein,
em
que
se defende
tese
semelhante,
I Will Fear no Evil (Não Temerei
Mal
Algum),
em
que
o
cérebro
perfeitamente
sadio
de
um
velho
cujo
corpo
era
mantido
vivo
por
instrumentos,
e
que
era
podre
de
rico,
é transplantado
para
o
corpo
de uma
linda
moça,
sua
secretária.
O
autor
gasta
uma boa
quantidade
de
páginas
argumentando
que
o a
pessoa
que
passou a
existir
no
corpo
da
moça
era
o
velho,
que
mudou de
corpo
–
porque
as
memórias
preservadas no
cérebro
transplantado eram as do
velho,
e,
portanto,
a
identidade
que
permaneceu deveria
ser
a
sua,
a
despeito
do
corpo.
Para
que
tanta
discussão desse
problema?
Porque
acredito
piamente
que
Locke estava
certo
e
que
é a
memória
a
base
da
identidade
pessoal.
Na
verdade,
acredito
que
a
memória
é
também
a
base
da
identidade
de
um
povo
ou
de
um
grupo.
É
por
isso
que
os
Israelitas
tinham
que
constantemente
se
lembrar
de
sua
história.
Preservar
a
sua
história
é
manter
a
identidade
de
um
povo
ou
de
um
grupo.
Cultivar
a
memória
é uma
forma
de
manter
a
identidade
em
uma
pessoa.
Aquilo
que
eu
esqueço
deixa
de
ser
parte
de
mim.
Algumas
vezes no
passado
me perguntei se
ainda
era
protestante.
Hoje
não
tenho
dúvida.
O Rubem Alves
me
convenceu de
que
sou. Sou,
porque
fui. Sou,
porque
vividamente
me
lembro de
ter
sido.
Ser
protestante
é
parte
de
minha
memória
viva,
e,
portanto,
uma
parte
inextricável
de
minha
identidade.
Outras
vezes no
passado
me dei
conta de
que
ainda continuava amando as
mulheres
que
amei.
Hoje
isso
não
me
assusta,
mais.
Amo,
porque
amei.
Amo,
porque
vividamente
me
lembro de tê-las
amado.
O
amor
que
um
dia
senti de
determinada
forma
é
parte
de
minha
memória
viva,
e,
portanto,
parte
de
minha
identidade
como
pessoa,
e,
assim,
ainda
existe,
ainda
que
não
se expresse da
mesma
forma
exterior.
Talvez
essas
considerações
expliquem o
que
sinto
pelo
JMC – o
que
todos
sentimos, acredito.
Não
gosto
de
me
rotular,
nem
que
me
rotulem, de ex-Manuelino. Sou
Manuelino
até
hoje.
Sou,
porque
fui.
O
que
me
causa
espanto
é
que
essa parece
ser
a
experiência
de
todos
os
Manuelinos.
Há uma
surpreendente
unanimidade
entre
os
Manuelinos,
que
é o
sentimento
terno
e
carinhoso
que
mantêm
pela
escola.
Basta
olhar
as
mensagens
deixadas no
site.
Uma
vez
Manuelino,
sempre
Manuelino.
Somos
Manuelinos,
porque
fomos. Somos,
porque
essa
escola
vive
em
nossa
memória
como
uma das
passagens
mais
importantes
da
nossa
vida.
Somos,
porque
é
impossível
que
alguém
realmente
nos
entenda
hoje,
num
sentido
profundo,
sem
entender
o
que
essa
escola
significou
para
nós.
Lembro-me do
que
me contou o Dorival Xavier, no
culto
de 7/2/98. Disse-me
que
imprimiu
minha
vinheta
sobre
o JMC e fez
cópias
para
seus
filhos,
dizendo: "Leiam
isso
aí,
para
que
vocês
saibam o
que
significa
ser
Manuelino".
Senti-me
mais
ou
menos
assim
como
deve
ter
se
sentido
o
escritor
sagrado,
contando a
história
do
povo
de Israel,
para
que
as
novas
gerações
não
perdessem a
sua
identidade.
A
última
turma a
cursar
o JMC o fez
cerca
de trinta
anos
atrás,
em
1969. É
possível
que
daqui a 50
anos
não
haja
mais
nenhum
Manuelino
vivo.
A
MENOS
QUE
ser
Manuelino
passe
a
ser
mais
um
estado
de
espírito
do
que
uma
condição
histórica.
A
MENOS
QUE
ser
Manuelino
passe
a
ser
assim
algo
semelhante
a
ser
Judeu,
que
mesmo
sem
ter
nascido na
Palestina,
mesmo
sem
pátria,
no
exílio
ou
na
diáspora,
continuou a
ser
Judeu
–
porque
se lembrava do
Senhor
seu
Deus
que
o tirou da
terra
do Egito.
O
nosso
esforço
com esta
Associação,
como
eu disse na
abertura do
site do JMC na
Internet, é
não
permitir
que
a
memória
do JMC se
perca,
é
preservar
a
memória,
e,
portanto,
preservar
a
identidade
do
Manuelino
– e, de
certo
forma,
dar
continuidade à
raça,
mesmo
que
de
forma
virtual.
Hoje,
com
computadores,
grande
parte
da
nossa
memória
está armazenada
não
no
nosso
cérebro,
mas
em
meios
magnéticos.
Nossos
computadores
hoje
passam a
fazer
parte
de
nossa
identidade.
O
mesmo
se dá no
caso
do JMC. O
site
do JMC na
Internet
é
indispensável
para
a continuidade da
raça.
Como
é o
museu.
E muitas outras
coisas.
Já
resgatamos
nosso
hino.
Hoje
temos
aqui
nossa
bandeira,
de
novo,
num
trabalho
de
resgate
histórico
fenomenal
do Takashi.
Depois
teremos nossas
camisetas,
nossos
agasalhos.
Aos
poucos
vamos recuperando
fotos,
histórias,
objetos.
Essas
coisas
são
importantes,
contudo,
apenas
pelas
memórias
que
elas
evocam e representam.
A
esperança, dizia
um
professor
meu
do
Seminário
de Pittsburgh, se
fundamenta
na
memória.
Nós
somos o
que
fomos, é
verdade
–
mas
somos
também
o
que
desejamos e esperamos
ser.
Nós
somos o
resultado
dessa
mescla
de
lembranças
e
sonhos,
recordações e
desejos,
memória
e
esperança.
O
povo
de Israel confiava na
vinda
do
Messias
(tinha
esperança)
porque
se lembrava de
que,
no
passado,
Deus
havia
estado
ao
lado
do
seu
povo
(porque
tinha
memória).
A
memória,
já temos. Precisamos
agora
trabalhar
para
dar
corpo
ao
nosso
sonho.
É a
parte
mais
difícil,
porque
a
memória
é
aquilo
que
foi –
mas
o
futuro
está
aberto,
pode
ser
o
que
sonhamos, e os
sonhos
são
muitos,
e muitas
vezes
incompatíveis.
Mas
é
preciso
trabalhar
para
procurar
definir
um
horizonte
na
direção
do
qual
caminhar.
É
por
isso
que estamos
mais uma
vez
aqui.
Bem-vindos a
esse
novo
encontro
dos
Manuelinos.