Da Juventude, da Velhice e da Morte


15 de Julho de 2003.

Relendo as últimas mensagens nesta nossa lista, comecei a pensar.

A lista é de educação. Apesar disso, ou, talvez, por isso mesmo, a gente vinha discutindo canções de ninar e histórias infantis. Canções que nos falam do bicho papão, da cuca, do soldado com olho de vidro, perna de pau e cara de mau. Histórias da Branca de Neve e da Rainha Má, dos Três Porquinhos e do Lobo Mau, e do Chapeuzinho Vermelho, e, de novo, o Lobo Mau. Feiúra, medo e maldade para todos os cantos.

Daí veio a onda mais amena, puxada pelo Antonio "Tonhão" Gonzales: as letras de Se esta rua fosse minha, de Alecrim dourado... Juntando tudo o Axel de Ferran sentiu "saudades dos tempos que não podem retornar". (Lembro-me de que meu pai em 1953 escreveu uma crônica para "A Hora da Saudade", programa da Radio Tupy, chamada "Tempos que não voltam mais". Falava da infância dele.)

Depois houve uma nova onda de mensagens, introduzida pela mensagem da Sílvia Caldeira, transcrevendo o texto de Martha Medeiros (Zero Hora de 30/09/2002), que diz que a felicidade só se alcança depois dos 35 anos.

E, daí, veio a chocante e dolorosa mensagem do Cláudio Alex Fagundes da Silva, falando da morte de seu filho, assassinado anteontem de manhã, em Búzios.

O Cláudio não diz qual a idade do Gabriel ao morrer -- mas ele não deve ter chegado aos 35. Segundo a tese da outra mensagem, ele não chegou sequer à idade em que viria a ser feliz.

Muitos comentaram as essas mensagens todas. Umas, num tom nostálgico e alegre; outras, evidentemente, num tom que revela dor, estado de choque, revolta e pasmo diante daquilo que não compreendemos e, por causa disso, não conseguimos aceitar.

Comento a resposta da Hérica à mensagem sobre a felicidade.

Segundo ela nos diz, faltam exatamente doze para que ela chegue aos 35 anos, à idade em que (segundo nos diz Martha Medeiros) podemos aspirar à felicidade... Isto significa, se minha aritmética não me falha, que ela está agora com 23 anos. Mais nova do que a mais nova de minhas filhas, que em breve fará 28 (e me dará, "deo volente", meu terceiro neto até o fim do ano). Menina madura a Hérica, para os seus 23 anos, como bem deixa entrever a sua mensagem. Tem juízo e bom senso.

Em Julho de 1967, 36 anos atrás, quando tinha a idade dela, eu me preparava para ir fazer pós-graduação nos Estados Unidos (fui dia 19/8/67) -- e não sabia ainda que iria me casar dali a menos de três meses (casei-me pela primeira vez, lá nos Estados Unidos, em 13/10/67 -- a namorada era brasileira: aqui de Campinas mesmo). Tinha a vida inteira pela frente -- ou assim me parecia. Estava feliz -- ou também assim me parecia.

Hoje, quase uma vida inteira depois, me preparo (?) para os sessenta anos, que farei no próximo 7 de Setembro. E me pergunto, como alguém já se perguntou aqui, se, caso tivesse a oportunidade, optaria por voltar aos dezoito, ou aos 23, ou aos trinta, ou aos quarenta, ou até mesmo aos cinqüenta.

Uns dizem que gostariam de voltar aos dezoito anos, desde que pudessem manter a mente, a vivência, a experiência da idade atual. Confesso que essa ilusão já me tentou.

Hoje me pergunto que graça haveria voltar aos dezoito se a gente fosse viver exatamente a mesma vida: estar nos mesmos lugares, encontrar as mesmas pessoas, tomar as mesmas decisões... Mas, por outro lado, se a gente, voltando aos dezoito, pudesse viver uma vida diferente, isto também teria seu ônus -- e um ônus para mim muito pesado: nessa hipótese, eu não teria a mulher que tenho, nem os filhos, nem (horror!) os netos que hoje ajardinam a minha vida.

Minha conclusão pensada, portanto, é que, tendo a oportunidade, e mesmo que pudesse manter a mente, a vivência e a experiência dos sessenta, eu não optaria por voltar a ter dezoito anos. Se o preço são as rugas, a flacidez, as doenças da idade... que seja pago. A gente recebe muita coisa boa em troca desse preço -- e eu, no fundo, sou um negociante, um "trader", que sabe que as coisas boas da vida têm seu preço.

Ingrid Bergman, talvez a mulher (em Casablanca, Oscar do ano em que nasci, 1943 -- meu segundo nome não é Oscar por nada...) -- retomando, talvez a mulher mais linda a povoar um dia o meu imaginário, uma vez, quando indagada se não se importava com o envelhecer, com o fato de que, com a idade, a sua beleza deslumbrante começava a fugir, disse: "Não... pois a única alternativa ao não envelhecer é morrer cedo"...

Talvez, ao dizer isso, Ingrid Bergman já tivesse perdido parte de sua beleza fulgurante. Duvido, porém, que tivesse tido essa sabedoria aos dezoito anos. É esse fato que nos permite nos conformar com a velhice, e, às vezes, até nos confortar com ela, saudá-la com alegria e reconhecer que nunca fomos tão felizes.

O duro é ver o jovem morrer cedo -- não chegar nem perto da idade que eu hoje tenho. O duro é ver o que aconteceu com o Gabriel, filho do Cláudio. Com isso acho impossível me conformar. Esse é um preço pago sem nada em troca.

O filho do Cláudio tinha o mesmo nome do meu neto mais velho, de três anos (quase quatro). Como diz o poeta, em Gente Humilde, olhando para ele eu, que não creio, peço a Deus que ele possa chegar à minha idade, e ir muito além, tendo, como eu (até agora), a sorte de não passar por uma dor tão grande quanto a do Cláudio nesse momento.

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Gente Humilde

(Vinicius, Chico e Garoto, 1969)

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente,
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar,
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar.
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio,
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar,
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente,
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar...

São casas simples
Com cadeiras na calçada,
E na fachada
Escrito em cima que é um lar,
Pela varanda
Flores tristes e baldias,
Como a alegria
Que não tem onde encostar.
E aí me dá uma tristeza
No meu peito,
Feito um despeito
De eu não ter como lutar,
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente,
É gente humilde
Que vontade de chorar.


15/07/2003 17:24