A Linguagem e as Línguas
[Crônica à guisa de uma mensagem dirigida a Luciana Salgado, em resposta a uma mensagem sua, transcrita abaixo, na lista de discussão do Programa "Sua Escola a 2000 por Hora" do Instituto Ayrton Senna]
A linguagem, Luciana, é uma das principais ferramentas com que pensamos, nos comunicamos, e argumentamos uns com os outros. Na realidade, subjazendo às linguagens naturais há a lógica, mas a lógica se apresenta originalmente através das roupagens de nossas linguagens naturais -- primeiro da língua materna, depois de outras línguas que aprendemos.
Todo mundo tem uma língua materna. E em vários momentos da história da humanidade, uma segunda língua se tornou obrigatória para quem desejou se tornar cidadão do mundo. O Grego exerceu esse papel durante um tempo, o Latim durante muito mais tempo ainda. Hoje é o Inglês. Aqueles que aprendem uma língua materna diferente do Inglês precisam aprender o Inglês tão cedo quanto possível, se querem sobreviver neste mundo globalizado. Você percebeu isso.
O problema é que muitos outros também perceberam, e bem antes de você. Por isso, no mundo verdadeiramente globalizado, o Inglês está deixando de ser um diferencial -- porque todos o falam... O fator diferenciador, nessa área, começa a ser uma terceira língua -- que, para nós, aqui, provavelmente será o Espanhol. Na Europa deve ser o Francês, o Alemão, o talvez Italiano... Em todo o mundo o Inglês é a segunda língua -- a terceira, depende da geopolítica. Para os paises satélites da ex-União Soviética, o Russo provavelmente seria a terceira língua natural... Para os canadenses de fala inglesa, o Inglês é a primeira, o Francês a segunda, e o Espanhol, provavelmente, a terceira. E assim vai.
Já defendi a tese, por escrito, numa das listas que coordeno na Internet [a Edutec], de que se a educação fundamental não fizesse outra coisa além de tornar as crianças realmente competentes no domínio das várias habilidades requeridas para entender e se expressar, oralmente e por escrito, na língua materna, nos vários contextos (descritivos, comunicacionais, argumentativos, expressivos [poesia, por exemplo]), etc. em que ela é usada, já faria muito por elas -- mais que nosso atual sistema faz. Se, no ensino médio, as crianças (já adolescentes) aprendessem competentemente mais duas línguas, estariam, ao terminar a educação básica, prontas para aprender o que quer que fosse.
Cometemos um crime contra nossas crianças e contra as gerações futuras quando deixamos crianças crescer sem dominar competentemente a língua materna, oral e escrita. Aqui na nossa lista dos alunos [lista paralela à dos professores, para a qual escrevi esta mensagem] vemos que desastre é a expressão escrita da maior parte dos nossos alunos. As crianças que não aprendem de forma realmente competente a língua materna terão dificuldade em aprender outras coisas. Não construímos os alicerces e depois esperamos que as paredes sejam sólidas. Não são e nunca o serão.
A linguagem é a ferramenta por excelência de nosso trabalho como educadores -- e muitos de nos exibimos falhas gritantes no nosso domínio dessa ferramenta. Temos dificuldade para ler textos mais complexos, expressamo-nos mal, de maneira vaga, imprecisa, ambígua, cometemos erros gritantes de sintaxe e ortografia. Não sabemos falar em público, embora seja falando em publico que ganhamos nossa vida -- e depois nos surpreendemos de que nos remunerem mal...
A Carla Peres não ganha a vida dela usando a voz -- ela usa outras ferramentas. Mas assim que descobriu que ferramenta era essencial para o seu trabalho, procurou cultivá-la, aperfeiçoá-la (como se fosse necessário...) -- colocou-a até no seguro... Quisera eu que nós educadores fôssemos tão preocupados com nossa principal ferramenta de trabalho: nossa linguagem, tanto falada como escrita.
Como disse em minha outra mensagem, sobre o computador, o uso competente do computador pressupõe o domínio de uma tecnologia mais básica ainda, a linguagem verbal, especialmente a escrita. Muitos vão fazer do computador um mero audiovisual, uma outra televisão, porque não se sentem à vontade com o texto, a linguagem escrita.
Há dias transcrevi aqui uma crônica de Mario Prata [transcrita abaixo] -- deleitando-se com o fato de que as pessoas estão voltando a se apaixonar umas pelas outras, não em função da aparência física ou da condição social, mas em função dos textos que cada uma é capaz de produzir... Quem se apaixonaria por nós com base em nossa produção escrita?
Acabei de ver no TeleCine 5 um lindo filme -- de 1945, com Jennifer Jones e Joseph Cotten, chamado Love Letters, Cartas de Amor, que aborda um tema até desgastado, tão comum se tornou. Durante a guerra, duas pessoas que haviam rapidamente se conhecido antes da guerra começam a trocar cartas. O rapaz, Roger Morland, porém, não sabe escrever direito, e, por isso, pede ao seu amigo, Alan Quinton, que escreva para ele. Quinton sabe escrever, e escreve cartas que deixam Victoria Singleton verdadeiramente apaixonada -- ele, também, se apaixonando por ela por causa das suas cartas... Terminada a guerra, Victoria e Roger se casam, ela se torna Victoria Morland... Mas logo percebe que o homem com quem casou não poderia ter escrito as cartas que ela tanto ama... Passa a viver lendo as cartas, na esperança de que elas consigam transformar o marido que tem ao lado na pessoa que as cartas revelavam. Não dá certo. A história assume tonalidades dramáticas, porque Roger morre esfaqueado e Victoria perde a memória...
O fascinante do filme, porém, como de tantos outros, como Nunca Te Vi, Sempre Te Amei, é que as pessoas mais sensíveis se apaixonam, não pela aparência dos outros, ou por sua riqueza, ou por seu poder político, mas por suas palavras, por seus textos. É pelas palavras, ou seja, pela linguagem, que revelamos o nosso ser mais intimo -- e que descobrimos o do outro.
Quem não domina, no maior nível de competência possível, pelo menos a língua materna, é um verdadeiro excluído das experiências mais profundas e significativas que um ser humano pode ter. Quando o mundo se torna a nossa casa, a língua que o mundo fala passa a ser nossa segunda língua materna. Este o estatuto que o Inglês alcançou hoje. Em nossos contatos mais significativos, a linguagem é essencial. Por isso, os brasileiros, que somos uma ilha lusófona em meio a um mar de hispano-falantes, precisamos também aprender espanhol.
Se alguém, aqui, tiver um relacionamento significativo com alguém que fala, como língua materna, o Francês, ou Italiano, ou o Alemão, ou o Japonês, ou o Árabe, terá de aprender essa língua se tem interesse em explorar as profundezas maiores que um relacionamento pessoal pode propiciar. Uma transa, ainda que diária, dura 30 minutos, se tanto... E nas outras 23 horas e trinta minutos, se não soubermos dizer o que sentimos, na língua materna da pessoa que amamos, com a mesma naturalidade que dizemos na nossa, estaremos deixando de explorar o significado maior de um relacionamento...
É isso, Luciana. Você perguntou o que eu acho. É isso que eu acho.
Deslanchei na língua inglesa quando, aos 19 anos, no inicio de 1963, arrumei uma namorada, Natalie Landes Browne, que, embora nascida em Peking, era filha de americanos e havia sido criada no Brasil (em Buriti, no Mato Grosso), falando, portanto, o Português com perfeição. Queria poder, como ela, conversar e escrever naturalmente em duas línguas... O namoro durou menos de um ano (embora mantenha contato com e-mail com ela até hoje -- ela hoje está casada com um japonês...). O interesse pelo multi-linguismo permanece até hoje.
Hoje tenho uma filha que tem no Inglês a sua língua materna. Não seria um pai pleno para ela se não conseguisse conversar com ela, com naturalidade, na língua dela, nos momentos de maior relaxamento e intimidade. E ela tem feito grande esforço para aprender o Português, não porque pretenda vir a viver ou trabalhar aqui -- mas para poder conversar com naturalidade com seus parentes para quem o Inglês não é língua materna. Eu já sabia Inglês quando ela nasceu. Para ela, porem, é um esforço maior -- que eu procuro plenamente reconhecer e apreciar. Quando ela tiver filhos [vide nota abaixo], provavelmente não terei outra alternativa senão conversar exclusivamente em Inglês com eles... -- a menos que eles, com sensibilidade e sensatez, percebam que eles sairão ganhando se aprenderem o Português, como segunda, ou mesmo como terceira, língua.
Ninguém aprende apenas uma língua. Aprende, ao mesmo tempo, uma cultura, com seus valores, com sua estética, com sua sensibilidade.
[Nota: Em 11 de Março de 2002 minha filha Andrea, nascida e criada nos Estados Unidos, me deu uma linda neta, Olivia. Para minha felicidade, ela está tentando ensinar o Português para a menina].
From: Luciana Salgado [
mailto:lsalgado@uol.com.br]ESCOLA2000: Lista de Discussao destinada a professores e pessoas envolvidas na coordenação do programa "Sua Escola a 2000 por Hora"
Oi, Eduardo
Fiquei preocupada com esta reportagem. Estou lutando para conseguir ter o domínio de pelo menos mais uma língua e, quando vejo, já está sendo falado que o ideal é ter o domínio de uma terceira!
O que tenho sentido, é que sem o Inglês realmente não dá para ficar. Muitas bibliografias interessantes na área educacional encontram-se somente nessa língua. Ou seja, se você quer se aprofundar nos seus estudos, você tem de dominá-la.
Agora o que mais me preocupa, é a maioria da população brasileira, que mal se comunica em Português, quanto mais em Inglês e muito menos em uma terceira língua.
E aí, o que você acha?
Um abraço
Luciana
Suporte SP
O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 20 de setembro de 2000
Amor só de Letras
Mário Prata
Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva. Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta - que ele fez uma cara emocionada. Pela feiura da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.
Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:
- Essa tá muito novinha. Leva aquela.
E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.
Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram. Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima. De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.
Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via Internet. Via cabo, literalmente.
Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.
Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.
Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.
Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.
A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela. E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha.
E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma Coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.
Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da Venezuela. Ou do Arroio Chuí. Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente.
"Uma pessoa com um texto desses..."
A tudo isso o bom texto supera.
Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita cuja. E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais: conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.
Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.
No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.
Quando comecei a escrever um livro pela Internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.
Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso:
- Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.
Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?
25/06/2003 01:31