O Poder das Palavras


Lendo alguns dos relatos acerca de romance na Internet, como os que faz Mário Prato na crônica que acabei de distribuir [transcrita abaixo], ocorreu-me uma coisa interessante.

Hoje em dia há muito sexo, muita transa, mas, aparentemente, pouco romance. As pessoas se encontram e já dormem juntas no primeiro encontro. Depois de pouco tempo de namoro o tratamento já é descortês, não há respeito mútuo, nem admiração recíproca. Exceto pelas brincadeiras e gozações que adolescentes e jovens hoje fazem uns com os outros, que envolve uma constante "aboborinhação" (que é um fenômeno tipicamente oral), eles pouco conversam, no sentido realmente mais profundo de conversar.

Quando uma pessoa encontra uma outra pela Internet, a distância é grande, a alternativa é conversar. Não dá para ir direto para a cama, não dá para ficar com as gozaçõezinhas e brincadeiras da molecada (que não se prestam bem ao "medium" escrito), e, portanto, a alternativa é conversar sério, como, até certo ponto, nos namores de antigamente, em que se exigiam determinados prazos, antes de o casal se tornar realmente sério, para que os dois se conhecessem.

Conversando, duas almas mais ou menos gêmeas podem facilmente se interessar uma pela outra a ponto de se apaixonar.

"Nunca te vi, sempre te amei" é o nome de um filme antigo em que duas pessoas se apaixonam por carta, uma de cada lado do Atlântico. Em outro filme antigo, "Cartas de Amor", um casal de conhece nas vésperas de o rapaz partir para a guerra. No campo de batalha ele, que não tem dom para escrever, pede a um colega que escreva para ele as cartas à sua amada. O romance cresce e floresce, pelas cartas. Quando ele retorna, logo se casam. Rapidamente, porém, a moça começa a perceber que aquele homem ali do lado dela não se parece com o homem das cartas, não se parece com o homem que ela ama... O relacionamento azeda, o cara começa a beber...

Um dia, bêbedo, confessa que não era ele que lhe escrevera as cartas. Ela parece que intuitivamente já havia descoberto isso. Começa a procurar pelo amigo do marido, até que o encontra -- e o amor que as palavras fizeram nascer segue o seu curso.

Hoje, grandes romances epistolares, têm chance de se repetir pela Internet exponencialmente, por causa da "imediaticidade" do meio (a frase me parece quase auto-contraditória, mas vá lá).

O viver junto tem seus aspectos bons, mas também traz seus desgastes. Quem sabe estamos presenciando um renascimento do platonismo na esfera romântica?

Sempre houve, na história, aqueles que acham que o corpo não importa -- que o importante é o espirito... Só que diferentes grupos tiravam lições diferentes dessa tese.

Para uns, se o importante é o espírito, é preciso mortificar o corpo, fazê-lo sofrer, para que a gente aprenda a dar valor ao espírito. Esses, os ascetas, ficavam dias em uma posição só, apenas para mostrar ao corpo quem mandava, açoitavam-se. Viviam exclusivamente do espírito.

Para outros, se o corpo não importa, não importa também o que fazemos com ele, e se esbaldavam. Eram adeptos de bacanais: bebiam e comiam à saciedade, engajavam-se em todo tipo de atividade sexual. Em tudo isso, segundo eles, nada que importava estava envolvido: só o corpo, e o corpo não era importante. Acreditavam ser capazes de manter a pureza espiritual mesmo que o corpo fosse impuro.

Uma dicotomia parecida com essa acontece com muitas pessoas.

Maridos mulherengos justificam suas escapadas dizendo à mulher: "foi apenas físico" -- como se isso fosse justificativa bastante para que elas não se preocupassem.

Uma mulher que escreveu à Rosely Sayão (no UOL) sobre sexo virtual [vide transcrição abaixo] estava perplexa porque, diferentemente de muitas outras pessoas, que traem seus cônjuges mantendo relações sexuais com pessoas pelas quais nada sentem, ela até agora manteve o corpo puro -- mas estava em dúvida se estava traindo "em espírito", através de conversas apaixonadas pela Internet com alguém que, do ponto de vista físico, era desconhecido.

Até o judiciário conservador já começa a reconhecer a "traição em espírito"...

A Rosely, pe-esse-de-bisticamente ficou em cima do muro. Não disse à sua interlocutora o que Jesus sabia: que quem trai em espírito é tão traidor quanto... -- OU TALVEZ MAIS!

Nesse "ou talvez mais" está, para mim, o crucial da questão.

Mencionei a alguns, depois da última aula, o filme "Cousins" (traduzido para português como "Um Toque de Infidelidade"), com Isabella Rossellini e Ted Danson. Nesse filme, os cônjuges desses dois são duas galinhas que transam com qualquer um. E a Isabella e o Ted são pessoas puras -- mas que acabam se apaixonando.

Quando o marido de Isabella Rossellini percebe que sua mulher está apaixonada, se desespera -- não porque a mulher pudesse estar transando com outro (isso ele fazia o tempo todo e não significava nada), mas porque a mulher Estava amando outro... -- e isso significava que ele estava prestes a perdê-la definitivamente.

Algumas pessoas não se incomodam tanto se seus cônjuges se apaixonam por outros, desde que não transem. Outras pessoas não se incomodam tanto se seus cônjuges transam com outros, desde que não se apaixonem...

Dizem que o maior receio dos homens é que suas mulheres os traiam, e que o maior receio das mulheres é que seus maridos deixem de amá-las... Será verdade isso?

Dizem que as prostitutas acreditam poder se manter puras apesar de se engajaram em atos sexuais o tempo todo -- desde que não se envolvam emocionalmente com seus clientes -- e o principal sinal de que estão se envolvendo é a VONTADE DE CONVERSAR... Por isso, conversar com o cliente é, para elas, tabu -- no resto, vale tudo). Elas dão acesso fácil (se bem que não necessariamente barato) ao seu corpo, mas negam acesso à sua alma, para a qual a palavra é a senha...

Não é surpreendente que o desejo de conversar seja evidência de que está começando a haver envolvimento amoroso? E que o sexo, em si, como ato físico, ainda que altamente satisfatório, não é evidência de que há amor?

Boa parte das mulheres que se separam o fazem, não porque a vida sexual não seja boa, mas porque... os maridos não conversam mais!!!

O poder das palavras... Se as pessoas percebessem o poder que as palavras têm, todo mundo estaria a aprender a língua o tempo todo, a ler vorazmente, a praticar o seu discurso escrevendo e falando... Meu amigo José Rubem Chrysostomo do Nascimento, colega da quarta serie do Ginásio, com quem eu fazia o caminho da escola diariamente, quieto, aparentemente despretensioso, sabia disso. Quando abria a boca, não desperdiçava o verbo. Era magro, feio, meio desengonçado. Olhando, ninguém dava nada para ele. Mas as meninas viviam atrás dele... Ele tinha o poder da palavra...

"Quem não é poeta quando está olhando as estrelas do céu perto de uma da terra?" dizia O Comprador de Fazendas no conto de Monteiro Lobato... Rara era a menina do interior, simples e resguardada, que conseguia resistir a uma investida dessas... As mãos podiam estar amarradas às costas, mas a conquista era certa...

O poder das palavras é, de certo modo, a vingança dos mais velhos, que podem perder o seu vigor físico mas, em geral, se tornam mais vibrantes em seu discurso.

As palavras são a senha que nos permitem abrir a alma e nos revelar a nós mesmos. O essencial, dizia Saint-Exupéry, é invisível ao olhar. Logo, o corpo, o contato físico, o abraço, a transa -- nada disso é essencial.

A despeito do que disse o Cepacol...

C'est ça.

Qual a implicação dessa visão para a educação -- para a educação a distância, em especial?

[Nota: Esta crônica incorpora trechos de outras crônicas que já escrevi e foi "recomposta" em benefício de meus alunos da disciplina EP-130A, Filosofia da Educação I, no Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da UNICAMP no primeiro semestre de 2003. A crônica de Mário Prata havia sido distribuída a eles. Cepacol é o apelido de um dos alunos].


O Estado de São Paulo
Quarta-feira, 20 de setembro de 2000

Amor só de Letras

Mário Prata

Conta a história que dom Pedro II casou-se sem conhecer a sua noiva. Tinha visto um quadro com a cara da princesa. Casamento de interesses políticos lá dos portugueses, fazer o que? E quando a moça chegou no porto do Rio de Janeiro - consta - que ele fez uma cara emocionada. Pela feiura da imperial donzela. Mas casou, era o destino, era a desdita.

Tenho um avô que foi pedir mão da moça e o pai dela disse:

- Essa tá muito novinha. Leva aquela.

E ele levou aquela que viria a ser a minha avó. Ah, a outra morreu solteirona.

Quando aconteceu o grande boom da imigração japonesa, alguns anos depois, familiares que lá ficaram mandavam noivas para os que cá aportaram. Tudo no escuro. E de olhinhos fechados, ainda por cima. De uns tempo para cá, o conceito da escolha foi mudando. Até ir para a cama antes, valia. Ficava-se antes.

Só que agora, finzinho do finzinho do século, surgiu um outro tipo de casamento. O casamento de letras. Letras de textos. O texto - finalmente, digo eu, escritor - virou casamenteiro. Apaixona-se, hoje em dia, pelo texto. Via Internet. Via cabo, literalmente.

Conheço quatro casos bem próximos. Gente que desmanchou o casamento de carne e osso por uma aventura no mundo das letras.

Claro que estou me referindo aos encontros via Internet. Começa no chat, com o texto. Gostou do texto, leva para o reservado. E lá, rola. Eu mesmo já me envolvi perdidamente por dois textos belíssimos. Moças de vírgulas acentuadas, exclamações sensuais e risos de entortar qualquer coração letrado ou iletrado.

Sim, pela primeira vez nesta nossa humanidade já tão velhinha, as pessoas estão se conhecendo primeiramente pela palavra escrita. E lida, é claro.

Já disse, isso envaidece qualquer escritor. Agora, o texto pode levar ao amor. Uma espécie de amor-de-texto, amor-de-perdição.

A relação, o namoro, começa ali no monitor. Você pode passar algumas horas, dias e até semanas sem saber nada da outra pessoa. Só conhece o texto dela. E é com o texto que vai se fazendo o charme. Você ainda não sabe se a pessoa é bonita ou feia, gorda ou magra, jovem ou velha.

E, se não for esperto, nem se é homem ou mulher. Mas vai crescendo uma Coisa dentro de você. Algo parecidíssimo com amor. Pelo texto.

Pouco a pouco, você vai conhecendo os detalhes da pessoa. Idade, uma foto, a profissão, a cor. Inclusive onde mora. Sim, porque às vezes você está levando o maior lero com o texto amado e descobre que ele vem lá da Venezuela. Ou do Arroio Chuí. Mas se o texto for bom mesmo, se ele te encanta de fato e impresso, você vai em frente. Mesmo olhando para aquela fotografia - que deve ser a melhor que ela tinha para te escanear (ou seria sacanear, me perdoando o trocadilho fácil) você vai em frente.

"Uma pessoa com um texto desses..."

A tudo isso o bom texto supera.

Quando eu ouvia um pai ou mãe dizendo "meu filho fica horas na Internet", todo preocupado, eu também ficava. Até que, por força do meu atual trabalho, comecei a navegar pela dita cuja. E descobri, muito feliz da vida, que nunca uma geração de jovens brasileiros leu e escreveu tanto na vida. Se ele fica seis horas por dia ali, ou ele está lendo ou escrevendo. E mais: conhecendo pessoas. E amando essas pessoas.

Jamais, em tempo algum, o brasileiro escreveu tanto. E se comunicou tanto. E leu tanto. E amou tanto.

No caso do amor ali nascido, a feitura, o peso, a cor, a idade ou a nacionalidade não importam. O que é mais importante é o texto. O texto é a causa do amor.

Quando comecei a escrever um livro pela Internet, muitos colegas jornalistas me entrevistavam (sempre a mim e ao João Ubaldo) perguntando qual era o futuro da literatura pela Internet.

Há quatro meses atrás eu não sabia responder a essa pergunta. Hoje eu sei e tenho certeza do que penso:

- Essa geração vai dar muitos e muitos escritores para o Brasil. E muita gente vai se apaixonar pelo texto e no texto.

Existe coisa melhor para um escritor do que concluir uma crônica com isso?


Pergunta e resposta sobre sexo virtual. Da coluna de Rosely Sayao, no UOL, de 14/09/2000. 

http://www.uol.com.br/sexo/sq14092000.htm

Interessante. Alguém já disse [creio que foi o Rubem Alves] que nosso órgão sexual mais importante é a cabeça. Temos confirmação ai'. Será que Jesus Cristo estava certo quando disse que basta pensar?

Eduardo
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Eduardo Chaves
eduardo@chaves.com.br
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Pergunta:

"Ola, Rosely. Não sou uma garotinha, mas estou viciada em sexo virtual. Desde que conheci um homem na Internet, há mais de um ano, ficamos nos encontrando e fazendo sexo virtual. E eu gosto muito, fico excitada de verdade: estou viciada nele, e ele em mim. Somos os dois casados. Às vezes penso que estou doente, outras vezes me considero carente, mas não quero parar e nem ele. Vivemos nos encontrando, quase todos os dias, e falamos de carinhos e sexo como se estivéssemos mesmo fazendo. Penso em acabar com isso, mas não consigo. Você acha anormal minha atitude? Vivo imaginando o que acontecerá se meu marido descobrir, porque é um segredo que guardo comigo."

Resposta:

Veja você como tudo na vida sexual precisa ser contextualizado! Por que é que sentir desejo sexual, ter tesão, gostar de se excitar, deveria fazer você pensar em doença?

Ninguém que tenha bom senso pensaria uma coisa dessas, concorda?

Mas é que no meio da sua história entram duas palavras que mudam a referência de tudo: Internet e casamento.

Todo mundo quer saber, hoje em dia, se fazer sexo virtual pode ou não ser considerada uma prática sexual normal. E quem tem a resposta? Por enquanto, ninguém. Aliás, é difícil afirmar a normalidade de qualquer prática sexual, pois isso depende da época, do grupo social, da cultura, dos costumes, etc.

Considerando isso, se vivemos na era da Internet, é muito complicado dizer que o sexo virtual não é normal.

E o casamento? Casamento significa um trato entre duas pessoas que envolve muitas coisas. Inclusive a fidelidade. Quando você transgride as regras do trato, você quebra a relação de confiança entre as pessoas.

Mesmo que a outra pessoa envolvida não saiba. Como você sabe, é o suficiente. Tanto que, mesmo sendo um segredo seu, isso está incomodando você.

Pois você precisa é se referenciar aos parâmetros da sua vida e do seu casamento para avaliar sua atitude.

Agora, considerar isso vício é complicado, pois supõe dependência. É essa a sua reclamação? Você acha que está dependente desse relacionamento e que, por isso, não consegue acabar com ele? Ah, e é diferente dos relacionamentos reais?

Se você pensar bem, tudo o que acontece na rede apenas reflete a vida real. O que acaba sendo uma pena, pois a vida real é tão repleta de limites!

Para terminar, essa é a sua questão: quais são os seus limites? Até onde você pode caminhar sem sofrer inutilmente?


25/06/2003 00:26