Professores
Uma coisa que tem me preocupado é a seguinte: teria John Keating, de Sociedade dos Poetas Mortos, sido um melhor professor se tivesse um computador a ajudá-lo? Sinceramente, acho que não. Procuro rebater o que parece estar por trás dessa pergunta (aqui retoricamente feita por mim mesmo) afirmando que nem todo professor, infelizmente, é um John Keating. Um John Keating não precisa de ajudas (ancillae) -- a maioria de nós, sim.
Mas em seguida me lembro de uma linda passagem de John Steinbeck, em que ele observa quão penosa é a vida da escola, quão chatos os professores -- e diz: apesar disso, se você teve sorte, você encontrou uns dois ou três professores que fizeram todo o resto valer a pena, pois eles ajudaram a transformar a sua vida, a fazer de você algo que você não teria sido, não fossem eles. Os meus três, disse Steinbeck, tinham algo em comum: uma paixão enorme pelo que faziam, um entusiasmo fabuloso pelas coisas que estudavam e ensinavam, um poder de contagiar e motivar os alunos de modo a fazer com eles também ficassem envolvidos por aquela paixão e por aquele entusiasmo. Eles não nos diziam o que fazer, o que estudar, o que aprender: eles abriam janelas de oportunidades, descortinavam horizontes, impregnavam a gente com uma vontade incrível de aprender, de saber cada vez mais, com um amor pelo conhecimento e pela verdade que tudo o mais parecia perder a importância; eles mostravam que, se a gente quer alcançar conhecimento, quer alcançar a verdade, sobre seja o que o for, a gente tem que batalhar, lutar por ela, porque a verdade não é manifesta. Quando a gente encontra um mestre assim, a vida nunca mais é a mesma. O que esses mestres nos transmitem não é dado, não é informação. Talvez seja conhecimento, mas é mais do que conhecimento: é o amor ao conhecimento; é mais do que a verdade: é o amor à verdade. Talvez esteja muito próximo de sabedoria.
Um mestre assim, com toda a probabilidade, não precisa de computador.
Michael Hammer disse, no livro que escreveu depois de Reengineering: educação é aquilo que resta depois que nos esquecemos daquilo que nos foi ensinado. Esquecemo-nos rápido do que nos foi ensinado -- se o que nos foi ensinado foi apenas conteúdo curricular, matéria, dado, informação pura e simples. Se nós tivemos sorte, o que resta, depois do esquecimento dos conteúdos que nos foram ensinados, é a curiosidade insaciável, é a vontade de aprender sempre, é o desejo de saber cada vez mais, é o inconformismo com respostas prontas, pré-fabricadas, com o dogmatismo daquele que se acha o orgulhoso possuidor da verdade em vez de se achar, como devia, seu humilde perseguidor.
Como é que a gente consegue ser um professor à imagem e semelhança de John Keating, ser um professor como um dos três que mudou a vida de John Steinbeck? Precisa computador pra isso? Mais: se a gente souber ser um John Keating, e tiver acesso a um computador, será que o computador ajuda ou atrapalha?
Tive mais sorte do que Steinbeck, eu tive mais do que três, tive cinco: Maria Elza Fiuza Teles, Ernst Manuel Zink, Dietrich Ritschl, Ford Lewis Battles e William Warren Bartley III. O primeiro desses professores, Dona Elza, só a conheci quando já tinha 18 anos completos. Os outros, só depois. O último, Bill Bartley, foi meu orientador de doutorado: convivi com ele quando tinha 27-28 anos. Apareceram tarde em minha vida, os meus mestres de vida. Mas apareceram, e, em parte, fizeram de mim o que sou hoje. A outra parte, quero crer, fui eu que contribuí. Meu terreno estava fértil e a época do plantio era certa.
Além desses cinco, tive mais três, virtuais, que me ensinaram por livros: David Hume, Karl Popper e Ayn Rand. Sou um indivíduo realmente de sorte.
Sem falsa modéstia, grandes questões são estas que levanto. Como todo bom filósofo, sou melhor para levantar questões do que para respondê-las. Sou melhor como agente provocador do que como quem aplaca provocações.
25/06/2003 00:52