Zeca, Profissão Engraxate
Enfim, recomeço a rotina.
Hoje minha casa finalmente voltou ao normal, depois do casamento de minha filha mais nova no sábado atrasado. Minha outra filha, que mora fora, também voltou para casa com minha neta, depois de 21 dias, e, assim, pude retomar controle do quarto que ela ocupou, que é o local onde fica a minha TV de tele grande, o meu aparelho de DVD, o meu VCR, a minha cadeira do papai e toda minha coleção de filmes em VHS e DVD.
Mas de manhã não queria ficar em casa. Queria andar, bater perna, jogar conversa fora, sem compromissos. Cheio dos shoppings, resolvi ir passear no centro da cidade. Gosto do centro de Campinas: do largo da Catedral, do antigo largo do teatro, do jardim Carlos Gomes, e, naturalmente, do Largo do Rosário. E quando vagabundeio por lá inevitavelmente decido ter os meus sapatos engraxados (ainda três reais), para poder ter um dedo de prosa com os famosos engraxates do Largo do Rosário -- todos eles acima de 70 anos. Há cidades, como Londrina, em que todos os engraxates são adolescentes. Em Campinas, não: são todos anciãos -- e é bem melhor assim. Não há comparação entre a prosa que se pode ter com uma pessoa com várias décadas de experiência e com um moleque que nem sabe direito onde fica o nariz (por mais petulante que possa ser a forma desse nariz).
Hoje, pela primeira, vez optei pelo Zeca (nome fictício, para preservar-lhe, tanto quanto possível, a anonimidade). Tem uma cadeira incrementada, com o nome dele escrito do lado com percevejos coloridos. E que dá uma boa visão do movimento da praça. Além do mais, tem guarda-sol e jornais e revistas para os clientes. Mas eu queria é conversar com ele, e minha escolha foi acertada: o Zeca é bom de prosa.
Zeca tem 73 anos, dos quais 34 ali como engraxate no Largo do Rosário (onde está desde fevereiro de 1969). O Zeca tem mais tempo de vida ali no largo do que muito cara metido a besta que, tendo comido mortadela a vida inteira, resolve arrotar peito de peru. Ali no Largo do Rosário, segundo disse, já riu muito, já fez os outros rirem, mas também já chorou e quase morreu com uma bala perdida que atravessou o peito de um outro homem e se alojou em sua nuca.
Casou tarde. Durante esses 34 anos de Largo do Rosário teve e criou quatro filhas. Teve também um filho que morreu aos 23 anos -- não quis perguntar do que nem ele o disse voluntariamente. A privacidade deve ser respeitada. Embora possa parecer difícil, ao longo desses anos juntou dinheiro suficiente para comprar uma pequena chácara em Hortolândia, onde mora uma de suas filhas e que hoje vale, segundo disse, uns oitenta mil. As outras três filhas ainda moram com ele e a mulher, mas estão todas bem empregadas. Uma até trabalha no Palácio da Justiça, ali mesmo no largo.
O Zeca tem bom humor, é gozador. Contou-me que de uma árvore ali do largo, perto de sua cadeira, começou um dia cair uma gosma, que se acumulava no chão. Reuniu os engraxates ali de perto, mais o Júlio, dono da banca de revistas e livros usados, e resolveram enganar os vagabundos que todos os dias ficam sentados nos bancos da praça, sem fazer nada, esperando que alguma sorte caia do céu. Disseram a eles que aquela gosma curava tudo o que era dor ou doença. O pessoal começou a aparar a gosma que caía da árvore e passar nos ombros, nas costas, nas pernas... Segundo disse, alguns até comeram a substância pastosa, que, conforme a história já devidamente aumentada, era boa até para úlcera do estômago... Depois de uns dias, ficaram com medo de a polícia descobrir a brincadeira e o Zeca pegou uma vara e cutucou o lugar da árvore de onde saía a gosma curativa: junto com um pedaço da casca da árvore, caíram no chão dezenas de baratas... O prazer da brincadeira ainda se refletia no seu rosto de moleque maroto, apesar dos 73 anos...
Aos poucos entrou na conversa um outro personagem, desses que passam o dia inteiro ali no largo, esperando algum bico. O Zeca disse a ele: "Sabe aquele vagabundo do Toninho? Ontem de tarde, depois que eu te dei aquela graninha procê tomar uma Scariol (Schincariol), ele teve a cara de pau de vir me pedir dois real pra almoçar. Eu perguntei pra ele se ele achava que porque eu te dei dinheiro ia dar pra ele também. Falei pra ele que eu te dou dinheiro porque você me faz uns serviços, me quebra um monte de galho, mas que ele é um serve-pra-nada que fica lá parado o dia inteiro, sem tentar arrumar serviço. Ele me disse que ainda não saiu a aposentadoria dele. Eu disse pra ele que quando sair vê se ele guarda um pouco pra não ficar pedindo pros outros no fim do mês". Comecei a perceber que a filosofia política do Zeca estava numa direção muito mais certa do que a do Presidente Lula.
O Zeca teve, segundo me disse, várias chances, nos últimos tempos, de arranjar a vida -- mas não pode aproveitá-las, por culpa exclusiva da mulher. Mulher é bom, refletiu, mas às vezes atrapalha um bocado. As três oportunidades que teve envolviam vender a chacrinha para, em dois casos, abrir um negócio, e, no terceiro caso, comprar um lindo sítio (onze alqueires) perto de Araxá, com córrego e lago, que uma velha amiga, que ficara viúva, lhe oferecera por quase nada (ainda se dispondo a esperar que ele vendesse a chacrinha para lhe pagar). Procurou e achou comprador para a chácara, a filha que mora na casa concordou em mudar para Araxá, mas na hora de assinar a escritura... a velha empacou: recusou-se a assinar. Resultado: continua engraxate e culpa a mulher. Fiquei pensando: por que é que tem mulher que faz dessas coisas com a gente? Mas o interessante é que, pela sua sorte, o Zeca não culpou a globalização, nem os países capitalistas, nem mesmo o governo brasileiro... A responsabilidade foi alocada ali mesmo, em casa...
Há pequenas coincidências em nossas vidas. O avô dele nasceu na mesma cidade do Triângulo Mineiro em que nasceu meu pai. Pensei até que pudéssemos ter algum parentesco, mas os sobrenomes não batem. É por causa de seu avô que queria tanto poder retornar ao Triângulo Mineiro, com a compra do sítio perto de Araxá.
Entre nós, mesmos, há coincidências. Ele nasceu na região de Itápolis e eu em Lucélia, localidades que não ficam muito distantes uma da outra. Ele conhece Lucélia. Informou-me ainda que a gerente do prédio em que funciona o famoso Restaurante Rosário (que estava bem atrás de nós no largo) também é de Lucélia. Coincidências em um mundo pequeno. Lembrei-me de que só vim encontrar alguém nascido, como eu, em Lucélia, em 1973, quando trabalhava em Hayward, na Califórnia. Era uma moça que fazia doutorado na Universidade de Berkeley. Não me lembro do nome dela. Deve ser hoje professora universitária em algum lugar. Quem sabe está em greve.
Perguntei ao meu amigo Zeca -- a essas alturas já éramos amigos, embora ele, bom profissional, não houvesse perguntado nada acerca de mim -- se era melhor morar aqui em Campinas hoje do que em 1970 -- e a resposta veio com rapidez: em 1970. Nem se comparam as duas coisas, disse. Hoje Campinas é uma cidade perigosa, cheia de vagabundos, ladrões, assaltantes, não mais a cidade tranqüila, pitoresca e agradável que era na época em que o Quércia era prefeito. Em 1970 os bondes acabavam de ser removidos da cidade. Diz a lenda que o Quércia usou os trilhos para cercar a sua fazendo em Pedregulho, mas o Zeca acha que isso é calúnia dos inimigos do Quércia. De qualquer maneira, a cidade era mais cidade então, e a Lagoa do Taquaral acabava de ganhar a sua caravela, que está lá até hoje -- presente do mesmo Quércia.
Por fim, arrisquei-me a perguntar-lhe sobre a guerra. "E o que você está achando dessa guerra, Zeca?" "Guerra é um troço feio", disse ele, "mas eu acho que o Bush deve dar uma lição nesse filho da puta do Saddam Hussein".
Não sei porque, mas quando vi o Zeca pressenti que havia mais sabedoria ali naquele engraxate idoso, representante autêntico "do Brasil profundo" (se posso me apropriar de expressão usada pelos franceses em relação ao seu país), do que num bando inteiro de professores universitários e jornalistas formados. Sapiência se obtém, não na vida da escola, mas na escola da vida.
Em lugar dos três reais que me cobrou, lhe paguei seis. A prosa mais do que valeu a diferença. O professor que habita em mim, muitas vezes malgré moi-même, devia ter-lhe dado dez.
25/06/2003 10:13